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Quem não está em crise? Por Marianna Tamborindeguy de Oliveira


O Covid-19 nos apresentou algo Impossível de prever, antecipar ou controlar e que mudou radicalmente nossas realidades. Isto é o suficiente para levantarmos algumas questões. Primeiro que, embora a ideia de novidade seja valorizada entre nós, temos muitas dificuldades com mudanças, com o diferente.



É bastante comum preferirmos ficar em uma situação que nos faz muito infeliz mas que conhecemos profundamente, que nos lançar em busca de um porvir. Estamos constantemente buscando jeitos de dar sentido para o que acontece, para dar conta do imprevisível e indeterminado da experiência. Paradoxalmente, é este mesmo estranho que nos permite abrir novos espaços internos e externos.

A adolescência, por sua vez, apresenta um devir radical onde não é possível camuflar ou acomodar o novo sem um grande trabalho interno. Este período da vida pode ser tomado como paradigma de violentas transformações, sendo pensado inclusive como um momento de crise. Crise desejável, sem a qual é impossível crescer e que implica no luto pela idealização dos pais, pelo corpo infantil perdido, além do encontro com o radical da sexualidade e a busca por novas identificações. Isto, claro, com a onipotência e a rebeldia característica dos jovens.

Se parece claro que a pandemia atual e a própria adolescência são momentos potencialmente ansiogênicos e angustiantes cada um a seu modo, fácil concluir que uma situação somada a outra pode mesmo intensificar muito desses afetos. Não deve estar nada fácil para os jovens suportar este momento de restrição confinados com suas famílias. Assim como para o pais não deve estar fácil tolerar seus adolescentes.

De saída, portanto, diria da imensa importância de acolhermos todos os tipos de reações emocionais apresentadas pelos nossos companheiros de quarentena nesse momento, lembrando que saúde mental não significa ausência de sofrimento nem ausência de sintoma. Trata-se então de um convite a buscar algum entrosamento com este não-saber que assola a todos, como uma experimentação em que provamos uma certa suspensão de nossos planos, de nossos modos de viver o cotidiano, da forma que damos sentido pras coisas. Diria até que seria um bom momento de aprendermos com os adolescentes, incertos até do corpo que têm.

De fato, vivemos um momento em que sabemos mais do que antes que não sabemos de nada. Com isso, temos chances talvez de encontrar novos caminhos. Se concordarmos com a ideia de que o coronavírus desnuda a crise civilizatória que vivemos há muitas décadas, centrada no individualismo radical, na desigualdade social escandalosa, no consumo excessivo e na degradação da natureza, é possível comemorar a ideia de que o mundo não será mais como era antes. Não há garantia de que seja melhor também, mas estamos aprendendo como um golpe a necessidade da solidariedade e cooperação para nossa sobrevivência nesse planeta. A ideia de coletivo aqui deve ser exaustivamente lembrada toda vez que sentirmos que estamos por demais sacrificados com esses tempos incertos. E, claro, lembrar que continua existindo ajuda especializada e não tem nada de errado em começar um processo terapêutico, se esse for o caso.

Marianna Tamborindeguy de Oliveira é psicanalista, especialista em clínica psicanalítica pelo IPUB/UFRJ e mestre em psicologia clínica pela PUC. Trabalhou por 3 anos no DEGASE, sistema socioeducativo estadual para adolescentes em conflito com a lei e atende há 9 anos em seu consultório particular.

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