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  • Foto do escritorVoz de Portugal

Marcelo pede Brasil "de liberdade, de democracia, de justiça, de sonho"

Da redação com a LUSA



O chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa, pediu hoje perante o Congresso brasileiro que o Brasil continue uma "pátria de liberdade, de democracia, de justiça, de sonho, de esperança, de reinvenção ilimitada, potência universal".

Marcelo Rebelo de Sousa discursava numa sessão solene comemorativa dos 200 anos da independência do Brasil, no Congresso Nacional brasileiro, em Brasília.

"Nós, portugueses, amamos profundamente no Brasil e em vós, brasileiros, essa alma enleante, indomável, tenazmente obstinada, que vos faz diferentes, que vos faz irrepetíveis na humanidade", acrescentou.

O Presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, iria fazer o discurso de encerramento, mas cancelou a sua participação nesta sessão no Congresso e não ouviu a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, que acabou por ser a última.

O Presidente português fez da sua intervenção essencialmente um agradecimento aos "queridos irmãos brasileiros" pela sua independência e pela nação que construíram, e ao falar do passado colonial mencionou as "escravidões, explorações e discriminações seculares".

"Que para sempre viva o Brasil, que para sempre viva a fraternal amizade entre o Brasil e Portugal, que para sempre viva a projeção no mundo da nossa mais vasta comunidade de fala, de língua, que no Brasil tem o esteio mais forte, o pilar mais incansável, a mais eterna juventude, o mais perfeito futuro. Obrigado Brasil", declarou, ao encerrar o seu discurso.

Antes, discursaram os presidentes do Senado Federal, Rodrigo Pacheco, e da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, assim como os responsáveis pelas comissões constituídas nas duas câmaras brasileiras para estas comemorações, e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux.

Marcelo Rebelo de Sousa apresentou-se como um "português, humilde servidor da vontade do povo, mas também neto, filho e irmão de portugueses acolhidos no Brasil, e pai e avô de brasileiros" – tem uma neta brasileira e um filho agora com dupla nacionalidade – e manifestou-se emocionado por usar da palavra no Congresso brasileiro.

Apontou o Brasil como "farol pioneiro para as independências de outros Estados irmãos" antigas colónias portuguesas e como "a raiz" da criação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), agradecendo aos "mais de 220 milhões de falantes e de cantantes de uma língua ainda mais universal pelo génio de autores e cantores brasileiros".

Em seguida, nomeou "escritores como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes, Clarice Lispector, João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Cecília Meireles, Mário Quintana, Monteiro Lobato, Lygia Fagundes Telles".

"E músicos como Heitor Villa-Lobos, Chiquinha Gonzaga, Ary Barroso, Cartola, Luiz Gonzaga, João Rubinato [mais conhecido por Adoniran Barbosa, o seu nome artístico], Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell, Elis Regina ou Cazuza – só para evocar alguns dos muitos que já nos deixaram", completou.

Marcelo Rebelo de Sousa agradeceu também ao Brasil pela "afirmação económica e institucional no mundo" e pelos "anseios de inclusão", que elegeu como "o grande desafio deste tempo", que está "para além das conjunturas passageiras de cada período ou instante".

No seu entender, os brasileiros têm a "capacidade de nunca desistir, de nunca resignar, de nunca tomar por perfeito o que está por cumprir" e os portugueses acompanham com "emocionante orgulho" os seus sucessos e "sonhos de mais e melhor".

O Presidente português deixou mensagens de "carinho forte e permanente" aos imigrantes brasileiros em Portugal e "solidariedade comovida" para com os portugueses que emigraram para o Brasil fugindo de "pobrezas económicas e sociais ou perseguições cívicas e políticas".

Sobre a construção da nação brasileira, disse que "D. Pedro, filho primogénito do rei de Portugal D. João VI, proclamou a independência" dando expressão a "tantas lutas pela libertação do domínio de 322 anos, desde que os brasileiros originários conheceram os portugueses, e depois as suas capitanias e o seu império colonial".

"Império colonial que lhes daria língua, vivências religiosas e culturais decisivas, unidade e dimensão únicas, e até transitoriamente a originalidade de uma capital de império fora da capital desse império. Mas lhe custaria, e a um sem número de africanos escravidões, explorações e discriminações seculares, tão fundas que não cessariam de um lado e de outro do Atlântico com o mero assomo histórico de D. Pedro", acrescentou.

Marcelo Rebelo de Sousa lembrou que em 1922 o então Presidente de Portugal António José de Almeida esteve nas celebrações do centenário da independência do Brasil e leu excertos da sua intervenção perante o Congresso brasileiro.

Nessa ocasião, o Presidente português agradeceu aos brasileiros "o favor" que prestaram a Portugal com a independência, considerando que os portugueses foram "grandes inventores do mundo", mas estavam "um pouco exaustos e debilitados".

Os brasileiros, sem a independência, ficariam "sujeitos à cobiça de adversários e inimigos que lhes tomariam conta desta ou daquela parcela", e quanto aos portugueses António José de Almeida observou: "Sem podermos nem devermos conservá-los sob a nossa ação, sob a nossa tutela, tudo teríamos perdido aqui: a hospitalidade para os nossos compatriotas, a manutenção de nossas tradições e, mais do que isto: essa língua admirável que falamos".

Depois de citar estas passagens, Marcelo Rebelo de Sousa afirmou que queria agradecer aos brasileiros "mais ainda do que em 1922, por um longo e rico caminho" do qual os portugueses são "sempre devedores".

Nesta sessão estiveram presidente Assembleia da República, Augusto Santos Silva, segunda figura do Estado português, e o secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades, Francisco André.


A cantora Fafá de Belém, luso-brasileira, interpretou os hinos nacionais do Brasil e de Portugal e fez questão de saudar o "Presidente Marcelo querido" e toda a comunidade de língua portuguesa, exclamando: "Viva Portugal, viva o Brasil, viva o nosso povo".

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